O Covid 19 e a crise planetária

O Covid 19 e a crise planetária

Diante de uma iminente segunda onda do vírus que vem assolando o mundo, obrigando novamente autoridades civis a tomarem medidas draconianas na contenção da pandemia, como a retomada do fechamento de comércios e estabelecimentos não essenciais, a fim de evitar uma calamidade pública no sistema de saúde que em muitas regiões do pais já se encontram em estado de colapso, urge repensar um novo modelo civilizacional, que respeite o planeta terra e inaugure novas relações sociais, não mais sustentada pelo lucro e a competição, mas pela cooperação e solidariedade.

Desde os anos 80, muitos cientistas tem alertado sobre o esgotamento dos recursos naturais do planeta terra, em decorrência de seu modo de produção capitalista, que desde essa época tem como adágio “o crescimento e o desenvolvimento infinito” do sistema de financeirização das grandes multinacionais que tem surfado na onda da globalização. Contudo, com o pulular das mais variadas epidemias no mundo, como foi possível observar por exemplo, no continente africano a devastação causada pelo vírus do ebola, surtos recentes de malária e sarampo no Brasil e, por fim, o Sars-cov 2 que de forma avassaladora e aterrorizante vem causando perplexidade em todo mundo, o malogro e falência do capitalismo selvagem, que insofismavelmente deixou claro uma evidente crise do paradigma antropocêntrico, constructo da modernidade, em que “o homem seria a medida de todas as coisas”.

Não é à toa, que diante desse contexto turvo e nebuloso ao qual estamos atualmente inseridos, e a mercê de um futuro indeterminado, inseguro e impreciso, que muitos estudiosos, teólogos, cientistas e lideranças civis e religiosas, vem alertando para a urgência da elaboração de um novo paradigma em que não seja o ser humano o centro de gravitação, mas um paradigma holístico, interdisciplinar e integral, que contemple todos os seres vivos que habitam nossa Casa Comum o Planeta Terra. Um Super Organismo Vivo, denominado carinhosamente pelos povos originários de Pacha Mama (Mãe Terra), considerado hoje o grande oprimido e espoliado pela raça humana, que pede socorro, pois daqui para frente, estaremos diante da seguinte encruzilhada: ou nos salvamos todos, mudando nossa relações sociais e a maneira como concebemos o mundo ou iremos nos chocar numa espécie de iceberg marítimo ou um desastroso meteoro planetário, assinando o nosso atestado de destruição sem precedentes.

Daí a preocupação de Sua Santidade o papa Francisco, que desde o início de seu pontificado, a partir principalmente de suas duas últimas Cartas Encíclicas, a saber: Laudato Sí e Fratelli Tutti, que serviram de inspiração e fundamentação para a Igreja do Brasil lançar algumas edições da Campanha da Fraternidade como em 2011 cujo tema era: “Fraternidade e vida no Planeta”, em 2016 intitulada: “Casa Comum, nossa responsabilidade” e por fim, a última edição da  Campanha que versou sobre o tema da ecologia, fora em 2017, norteada pelo tema: “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida”. O que se pode verificar nessas e outras iniciativas, como por exemplo as Conferências do Clima (Ex.: Eco 92, Copenhague, entre outras) é o esforço em criar na humanidade uma consciência planetária, de que todos nós estamos interligados pelo vínculo do amor e do cuidado, ou seja, um paradigma ecocêntrico ou cosmocêntrico, que seja plural, ecumênico e dialógico, em que a vida, seja ela racional ou não, esteja no centro. É por isso que o papa Francisco tem insistido em substituir o modelo antropocêntrico de produção atual, pelo paradigma do Frater, que sustenta a ideia do Irmão como elo de interligação e interdependência, entre tudo e todos.

Oxalá, que este “deserto existencial” (pandemia) ao qual estamos enfrentando, inspire em nós novas concepções, atitudes, visões e valores que defenda e priorize a vida de todos os seres vivos, a fim de resgatarmos algumas das benesses do paraíso perdido de outrora. Por hora é isso. Paz e bem!

Padre Adriano Brito Maia, OFS