O poder terapêutico do perdão

fotografiareligiosa_1561516075 (1)Ao fazer a leitura orante do Evangelho do dia 09 de março, deparei-me com o diálogo do apóstolo Pedro com Jesus (Mt 18, 21-35), que insistentemente pergunta ao mestre quantas vezes se deve perdoar, como bem elucida o seguinte versículo: “Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: ‘Senhor, quantas devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?’ (Mt 18, 21). Passagem essa bem conhecida por todos nós, sabemos a resposta de Jesus diante da indagação de Pedro: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mt 18, 22).

Judeu ortodoxo que era, Pedro fica preso na questão quantitativa, pois para um judeu genuíno, três vezes era o limite máximo para dar ou receber o perdão. Mais que isso, seria abuso. Porém, ao responder “setenta vezes sete”, Jesus utiliza-se de uma hipérbole, para sinalizar que o perdão nunca deve se enquadrar na lógica quantitativa, pois ele deve ser praticado de forma infinita e ilimitada. Ao rezar esse Evangelho, pude constatar por experiência própria, o poder terapêutico do perdão, pois ao longo de nossa caminhada, corremos o risco de trazer no coração pessoas e fatos que de certa forma nos causaram muitos traumas e decepções, seja por calúnias, contendas e difamações veladas ou até mesmo por agressão física, psicológica ou verbal.

Percebi em minhas orações, o quanto é nocivo e tóxico alimentarmos sentimento de ódio, raiva ou vingança para com todos os nossos algozes, pois de fato, como fora comprovado pela ciência, pessoas que guardam ressentimento, vão se deprimindo e desenvolvendo patologias das mais variadas espécies, a saber: noites de insônia, depressão, pânico, desmotivação, possessividade, tristeza interior, fobia social (fechar-se dentro de casa para não se encontrar com ninguém), entre outras doenças psíquicas e espirituais que vão somatizando no corpo, ocasionando o surgimento inclusive de doenças físicas: coceira excessiva, dores nas costas, náuseas, dores de cabeça, hipocondria (uso excessivo de medicamentos), emagrecimento abrupto e repentino, manchas no corpo, falta de apetite, entre outras manifestações que apontam que algo em nós não vai bem. Tudo isso vem de encontro com a afirmação contundente de Shakespeare: “O ódio ou a raiva é um veneno que tomamos, esperando a morte do outro”.

formacao_nossa-religiao-gira-em-torno-da-pascoa-artigo-768x576Diante esse quadro sombrio e nefasto, descobri nesse tempo de padre e atendendo as pessoas em minha prática pastoral, que a falta de perdão é extremamente ruim para cada um de nós e é a principal causa do surgimento das diversas doenças elencadas anteriormente. Em contrapartida, quando perdoamos de coração, aqueles ou aquelas que nos causaram algum dano, mesmo que fora de forma injusta, nós nos tornamos mais alegres, livres para amar e irremediavelmente mais saudáveis espiritualmente, psiquicamente e fisicamente. Isso nos leva a concluir que o perdão, não só desamarra o réu ou o algoz, que prejudicou o irmão de alguma forma, mas torna-se eficaz ferramenta de cura e libertação principalmente para aquele que toma a iniciativa do perdão.

É belíssimo observar, por exemplo, a atitude do Papa Francisco, que na esteira de seu inspirador Francisco de Assis, aproveita-se em suas viagens apostólicas por países de origem muçulmana, para aproximar-se e pedir perdão aos islâmicos, por todo mal que o Cristianismo causou a eles no período das Cruzadas. Ou para ser mais emblemático, quem não se lembra, da coragem do Papa São João Paulo II, em solicitar o perdão às famílias de crianças infelizmente abusadas sexualmente por alguns sacerdotes ao redor do mundo? Como diz meu amigo Padre Celso Abreu de Jesuz: “A amizade é uma possibilidade, mas o perdão é uma necessidade”. Necessidade tanto para quem pede, quanto para quem recebe o perdão.

Dito isso, deixo aqui algumas indagações: Nesta quaresma, você já realizou um sincero exame de consciência a fim de descobrir quais os fatos, situações ou pessoas que te causaram mal e precisam ser perdoados e libertados? Já se organizou a fim de procurar um padre para fazer uma boa confissão e se libertar de suas amarras internas (falta de perdão) que estão te deixando doente? Pense nisso. Por hora, é isso. Paz e bem!

Padre Adriano Brito Maia, OFS.