Maria e a Palavra de Deus

IMG-20170915-WA0025Para celebrar o Ano Mariano, por ocasião dos trezentos anos do encontro da Imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida nas águas do Rio Paraíba do Sul, o padre Ricardo preparou uma linda reflexão sobre Maria e sua relação pessoal com a Sagrada Escritura.

“E Maria meditava todas essas coisas em seu coração” (Lc 2, 19)

Na Sagrada Escritura, o “coração” simboliza o núcleo interior da pessoa humana, o centro do ser, a interioridade. Em outras palavras, é no coração que são tomadas as decisões fundamentais da própria história. É o que há dentro do coração que revela a identidade de alguém (Mt 12, 34), o que a pessoa de fato é. Nos Salmos, vemos como o salmista deixa fluir do fundo do seu coração suas angústias, suas alegrias e suas lutas interiores: “O meu corpo e o meu coração poderão fraquejar, mas Deus é a força do meu coração e a minha herança para sempre” (SL 73, 26).

Para o homem bílbico, o coração como centro de todas as decisões e da liberdade da pessoa humana, pode ser inclinado tanto para o bem quanto para o mal. Aquele que se inclina para o mal é “estulto”,  “tolo” e “néscio”, isto é ignorante e imbecil, e a sua ruína é certa. Ao contrario, o “sábio”, o “inteligente”, o “justo” é aquele que vigia sobre os seus passos, sobre sua boca, sobre as suas paixões, e a sua felicidade é assegurada pelo bem que faz e a benção que adquire.

Para o povo de Israel, a fonte da benção, da sabedoria e da justiça é a Lei do Senhor. São os mandamentos e preceitos que Deus confiou a seu Povo, por boca dos patriarcas, profetas e juízes. É o que está contido nas letras sagradas da Escritura. A Palavra de Deus é o equlíbrio do Universo!

Desta forma, o homem sábio é aquele que conhece esta Palavra, e o conhecer na Bíblia, significa uma relação profunda. O sábio “devora” esta Palavra, a lê, estuda, medita e rumina. A Palavra torna-se o seu alimento, fonte onde mata sua sede e renova a sua vida e suas esperanças. E o homem da Bíblia sabe que a Palavra de Deus é viva e eficaz, ela faz acontecer, ela traz do nada a existência, pois na origem Deus disse “faça-se” e tudo foi feito, tudo passou a existir.

No entanto, na tradição antiga de Israel, as letras sagradas da Escrituras só podiam ser estudadas, meditadas, lidas, pelo homem. A mulher não podia “manusear” os pergaminhos da Escritura. A mulher em alguns trechos da Escritura é vista como perigosa, causa de perdição. Elas podiam desviar o homem do caminho da lei e da sabedoria, quando estes se rendem aos seus encantos e beleza. E neste caso, a mulher devia ser evitada, pois ela podia desviar os corações mais sábios e até mesmo os homens mais poderosos, como o rei Salomão, e perdê-los pela seduação.

Neste cenário, a mulher conheceu as Escrituras através das histórias contadas pelos pais, pelo ensino dos rabinos no sábado na sinagoga, pelas orações feitas pelo pai de família nas datas festivas. Ela não leu as Escrituras, só entrou em contato com elas pelo ouvir. A mulher, se queria conhecer a Lei do Senhor, tinha de aprender a “habilitar” os ouvidos. Ouvir e não deixar cair nenhuma palavra. Contudo, as mulheres sempre tiveram a fama de ser fofoqueiras, de reproduzir tudo que veem e ouvem e, muitas vezes, distorcidamente. Portanto, não competia a elas ensinar ou pregar as Escrituras. Elas deviam ouvir e se fossem sábias, guardar as Escrituras no coração, respeitar e praticar.

Maria, a mãe de Jesus, aprendeu a ouvir e guardar. Tornou-se sábia. Sua sabedoria não passou despercebida ao Evangelista que diz: “Maria, contudo, conservava cuidadosamente todos estes acontecimentos e os meditava em seu coração” (Lc 2, 19). A sua descrição era tanta que não podia passar desapercebida. Sua atitude meditativa, procurando compreender mais do que entender era eloquente. Ela aprendeu mais do que ler, aprendeu a meditar a Palavra e a própria vida nos acontecimentos. E vendo que o seu Filho é a própria Palavra encarnada, a própria Vida, só havia uma palavra sábia a ser pronunciada pelos seus lábios: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2, 5).

Pe. Ricardo Ramos