Nas pegadas de Jesus o Bom Pastor

Como é de costume, todos os anos a Igreja Católica dedica o 4° domingo da Páscoa a Solenidade de Jesus o Bom Pastor. Sabemos que em suas parábolas, Jesus sempre utiliza-se de elementos conhecidos do contexto ao qual está inserido o seu povo, para transmitir-lhes de forma mais prática e compreensível a sua mensagem evangélica, como por exemplo: semente, terra, peixe, rede, pescadores, rebanho, entre outros. Oriundo de um contexto rural, pastoril e nômade, o povo de Israel sempre se apropriou da imagem do Pastor, para se referir a Deus, como bem atesta os profetas Jeremias e Ezequiel, mais especificamente em seu capítulo 34. Não é à toa, que figuras como a de Abel, Davi e Moisés, ganham no Antigo Testamento, essa roupagem do pastor que guia, norteia e orienta o povo, que inevitavelmente adquiri a imagem simbólica de ovelhas.

Quem esteve peregrinando na Palestina, pôde perceber a obediência das ovelhas, cujo o sentido da audição é o mais apurado, em relação ao seu dono, que ao ministrar ou manusear costumeiramente o seu apito e dotado de voz eloquente e de comando, facilmente ordena e organiza o rebanho das ovelhas, separando-as inclusive dos cabritos e guardando-as em seu respectivo redil. É a partir dessa imagem emblemática, que os evangelistas, utilizam para se referir a Jesus, como sendo o Bom Pastor que dá a vida pelas suas ovelhas, pois ele as conhecem e elas conhecem a voz de seu Pastor (Jo 10, 11-18).

Contudo, ao pesquisar a etimologia da palavra “Bom”, que defini a característica principal do pastor que é Jesus, observa-se a insuficiência da tradução, pois a palavra “bom” tem sua origem na expressão grega “Kalós” que também pode ser traduzido como “verdadeiro” ou “belo”. Portanto, Jesus não é somente o bom pastor, mais que isso, ele é o verdadeiro pastor, que se distingue de forma diametralmente oposta a imagem dos mercenários ou lobos vorazes que são os falsos pastores, que querem somente a lã ou até mesmo a pele das ovelhas. Como se vê, a intenção tanto dos profetas quanto dos evangelistas, ao apresentar essas duas imagens presentes em suas respectivas narrativas (verdadeiro pastor e mercenários), é fazer com que sejamos capazes de analisar não somente qual postura de liderança que adotamos, seja em nossas famílias ou comunidades, mas também como atualmente se encontram as nossas autoridades, sejam elas civis ou religiosas. Aqueles que governam as nossas instituições civis ou religiosas, tem assumido uma postura de verdadeiros pastores ou de mercenários? E por fim, você em sua comunidade, fraternidade, entidade filantrópica ou família, tem se assemelhado ao Cristo bom pastor que dá a vida pelas suas ovelhas ou aos falsos pastores que roubam, enganam e corrompem?

Peçamos por intercessão de Maria Santíssima, Mãe de Deus e nossa, que adquiramos em nosso cotidiano as atitudes e virtudes do Cristo Bom Pastor que cuida, zela e protege as suas ovelhas, contra os assaltantes e os mercenários. Por hora é isso! Paz e bem!

Padre Adriano Brito Maia, OFS.

Maio: mês mariano

Mês de maio, mês das noivas, mês das mães e mês das flores, mas principalmente um mês dedicado a Maria, mãe de Nosso Salvador e nossa.

Falar da Virgem Maria, numa data tão especial como esta, é sem dúvida alguma, ressaltar a importante figura de mulher e mãe que representa Nossa Senhora para os católicos do mundo inteiro. Considerada “estrela da evangelização”, como bem destacava costumeiramente em seus pronunciamentos e documentos o Papa São João Paulo II, Maria é aquela que nos aponta o caminho a seguir. Mulher solícita, silenciosa, discreta e cuidadora, não hesitou em dizer “Fiat (faça-se)” a Deus, sendo assim a primeira discípula-missionária, que ao aderir ao projeto salvífico do Pai, gerou e deu à luz o seu Filho muito amado, para a redenção do mundo.

Ao observarmos, por exemplo, a celebração do Dia de Nossa Senhora de Fátima, que anualmente ocorre todo dia 13 de maio, data esta imediatamente após a comemoração do Dia das Mães, é notável a devoção popular que está arraigada no imaginário psíquico de nosso povo brasileiro. Frases do tipo: “Maria passa a frente, Pede a Mãe que o filho atende, um filho de Maria jamais se perde (Pe. Celso) e valei-me Nossa Senhora”, denotam o arquétipo da figura materna que todos nós carregamos em nosso inconsciente, e que se remete imediatamente a figura de Nossa Senhora. Não é à toa, que a maior parte das imagens que retratam Nossa Senhora, possuem o seu manto na cor azul, que a partir de uma leitura simbólica, representa nesse caso a cor da proteção, do carinho e do cuidado materno. Dessa forma, podemos constatar que a devoção a Maria, está carregada mais de afeto e sentimentos, do que algo puramente racional ou abstrato.  

Com isso, há de se constatar que Nossa Senhora, representa os anseios de todas aquelas mães que na peleja da vida, buscam a partir da pedagogia do cuidado, do afeto e do carinho, gestarem seus filhos na fé da Igreja. Gestação esta, repleta de desafios e aflições na atualidade: sedução das drogas, sexualidade desenfreada, ausência total de projetos que norteie e dê sentido a vida, desrespeito e violência, entre outras chagas, que corroem profundamente o paradigma educacional dos filhos. Eis alguns desafios que também Maria e José, enfrentaram dentro do contexto de sua época, a fim de fazer Jesus crescer em “sabedoria, em estatura e graça diante de Deus e dos homens”, como bem esboçou Lucas 2, 41-52, quando este evangelista retrata a desobediência do menino Jesus, que aos 12 anos, repentinamente desaparece, sem dar satisfação aos seus pais de seu paradeiro, deixando os mesmos, aflitos e angustiados à sua insistente procura. Quantas não são as mães hoje, desesperadas que estão, por não saberem o rumo ou a direção que estão percorrendo seus filhos, neste “mundão de meu Deus”?

Enfim, como “todas as Nossas Senhoras são a mesma mãe de Deus”, cantada em prosa e verso na composição de Roberto Carlos, queremos rogar a todas as Nossas Senhoras, nesse mês dedicado a ela, seja lá qual for sua devoção particular, a benção e a proteção, à todas as mães que lutam diariamente com muito empenho e dedicação, na educação de seus filhos. Que Maria possa ser exemplo de sabedoria, prudência e mansidão a essas mulheres guerreiras, que mesmo na dor e na dificuldade, não se cansam ou desistem de seus filhos. Feliz Dia das Mães! Nossa Senhora do Amparo, rogai por nós; Nossa Senhora do Bom Conselho, rogai por nós; Nossa Senhora Aparecida, rogai por nós; Nossa Senhora de Fátima, rogai por nós, Nossa Senhora dos Anjos, rogai por nós, Nossa de Lourdes, rogai por nós… enfim, Todas as Nossas Senhoras, rogai por nós! Por hora é isso! Paz e bem!

Padre Adriano Brito Maia, OFS.

A espiritualidade da Semana Santa

Semana-SantaIniciando com a celebração de Domingo de Ramos e encerrando com a celebração da Vigília Pascal no sábado, a Semana Santa tornou-se na vida de todo católico, momento para contemplar o Mistério Pascal de Cristo que compreende a sua paixão, morte e ressurreição. Neste ano de 2021, ano atípico em decorrência da pandemia do Covid 19 que assola o mundo desde o ano passado, o que acaba impedindo muita gente de realizar suas respectivas viagens a fim de aproveitar o feriado prolongado, se faz necessário e mister aproveitar o presente momento para vivenciar de forma profunda e diferenciada, tão salutar semana.

Sem cair em digressões, penso que dois são os elementos fundamentais dessa Semana Santa, a saber: a cidade de Jerusalém e a Cruz. Para quem viveu a Quaresma de forma intensa, pôde perceber e caminhar com Jesus até o objetivo último de sua missão: Jerusalém. Cidade esta que condena e mata os profetas, pois se tornara antro de corrupção e violação. Jerusalém aqui representa o calvário, o sofrimento, a agonia e dor que Jesus passou antes de ressuscitar. É de se observar que inúmeras pessoas nesta Quaresma, chamados por muitos estudiosos, de “deserto existencial”, devido a situação pandêmica que vivemos, pôde sentir a mesma agonia e insegurança de Jesus, que obediente ao Pai, não titubeou e seguiu até o fim, sem reclamar ou murmurar. Padre Adroaldo Palaoro, um grande teólogo jesuíta, recomenda a nós, que possamos neste tempo assustador em que vivemos, nos voltar para a nossa “Jerusalém interior”, a fim de purificá-la de todo pessimismo, sentimento de angústia, medo, insegurança, ódio, rancor, frustração, negativismo entre outros sentimentos nocivos à saúde mental e espiritual, e fazer uma faxina, a fim de que nossa “Jerusalém interior” possa permitir a entrada de Jesus montado no burrinho, trazendo paz, conforto, alegria, ânimo e esperança.

Um segundo símbolo que é imprescindível e central nessa Semana Santa é a cruz. Se no princípio a cruz era considerada objeto de maldição, vergonha e fracasso, em que somente bandidos e revoltosos em relação ao sistema do Império Romano eram punidos a partir de tal condenação demasiadamente cruel, com Jesus Cristo, ela adquire a conotação de redenção e salvação. Pois de fato, não existe vitória sem luta, glória sem esforço e ressurreição sem cruz. Ao aceitar ser morto na cruz, Jesus concede sentindo aos momentos de dor, sofrimento e desespero, pois como já dizia um sábio: “o problema não é o sofrimento, mas sim o sofrimento sem sentido”. Frei Raniero Catalamessa da Ordem Franciscana dos Capuchinhos e pregador da Casa Pontifícia, compara a cruz com o Covid 19, ensinando-nos que não devemos olhar a cruz a partir de suas causas, mas sim a partir de seus efeitos positivos. De acordo com ele, muitos tentam explicar a pandemia referindo-se sempre às suas causas imediatas, esquecendo-se dos efeitos que tal momento histórico, tem possibilitado à todos de experimentarem, por exemplo, o fim do delírio de onipotência, uma vez que o vírus acaba por expor a vida de todos sem qualquer distinção e o reforço de solidariedade como um valor universal que tem unido as pessoas em torno de um mesmo denominador comum: valorizar e salvar a vida.

 Ao fim, desejo a todos os leitores e leitoras, que de fato essa Semana Santa seja diferenciada e vivida de forma intensa por todos nós, auxiliando-nos a retornar a nossa “Jerusalém interior” a fim de purifica-la e dando-nos força e coragem para carregar a nossa cruz até o término da nossa jornada. Por hora é isto. Paz e bem!  

Padre Adriano Brito Maia, OFS.

 

O Covid 19 e a crise planetária

O Covid 19 e a crise planetária

Diante de uma iminente segunda onda do vírus que vem assolando o mundo, obrigando novamente autoridades civis a tomarem medidas draconianas na contenção da pandemia, como a retomada do fechamento de comércios e estabelecimentos não essenciais, a fim de evitar uma calamidade pública no sistema de saúde que em muitas regiões do pais já se encontram em estado de colapso, urge repensar um novo modelo civilizacional, que respeite o planeta terra e inaugure novas relações sociais, não mais sustentada pelo lucro e a competição, mas pela cooperação e solidariedade.

Desde os anos 80, muitos cientistas tem alertado sobre o esgotamento dos recursos naturais do planeta terra, em decorrência de seu modo de produção capitalista, que desde essa época tem como adágio “o crescimento e o desenvolvimento infinito” do sistema de financeirização das grandes multinacionais que tem surfado na onda da globalização. Contudo, com o pulular das mais variadas epidemias no mundo, como foi possível observar por exemplo, no continente africano a devastação causada pelo vírus do ebola, surtos recentes de malária e sarampo no Brasil e, por fim, o Sars-cov 2 que de forma avassaladora e aterrorizante vem causando perplexidade em todo mundo, o malogro e falência do capitalismo selvagem, que insofismavelmente deixou claro uma evidente crise do paradigma antropocêntrico, constructo da modernidade, em que “o homem seria a medida de todas as coisas”.

Não é à toa, que diante desse contexto turvo e nebuloso ao qual estamos atualmente inseridos, e a mercê de um futuro indeterminado, inseguro e impreciso, que muitos estudiosos, teólogos, cientistas e lideranças civis e religiosas, vem alertando para a urgência da elaboração de um novo paradigma em que não seja o ser humano o centro de gravitação, mas um paradigma holístico, interdisciplinar e integral, que contemple todos os seres vivos que habitam nossa Casa Comum o Planeta Terra. Um Super Organismo Vivo, denominado carinhosamente pelos povos originários de Pacha Mama (Mãe Terra), considerado hoje o grande oprimido e espoliado pela raça humana, que pede socorro, pois daqui para frente, estaremos diante da seguinte encruzilhada: ou nos salvamos todos, mudando nossa relações sociais e a maneira como concebemos o mundo ou iremos nos chocar numa espécie de iceberg marítimo ou um desastroso meteoro planetário, assinando o nosso atestado de destruição sem precedentes.

Daí a preocupação de Sua Santidade o papa Francisco, que desde o início de seu pontificado, a partir principalmente de suas duas últimas Cartas Encíclicas, a saber: Laudato Sí e Fratelli Tutti, que serviram de inspiração e fundamentação para a Igreja do Brasil lançar algumas edições da Campanha da Fraternidade como em 2011 cujo tema era: “Fraternidade e vida no Planeta”, em 2016 intitulada: “Casa Comum, nossa responsabilidade” e por fim, a última edição da  Campanha que versou sobre o tema da ecologia, fora em 2017, norteada pelo tema: “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida”. O que se pode verificar nessas e outras iniciativas, como por exemplo as Conferências do Clima (Ex.: Eco 92, Copenhague, entre outras) é o esforço em criar na humanidade uma consciência planetária, de que todos nós estamos interligados pelo vínculo do amor e do cuidado, ou seja, um paradigma ecocêntrico ou cosmocêntrico, que seja plural, ecumênico e dialógico, em que a vida, seja ela racional ou não, esteja no centro. É por isso que o papa Francisco tem insistido em substituir o modelo antropocêntrico de produção atual, pelo paradigma do Frater, que sustenta a ideia do Irmão como elo de interligação e interdependência, entre tudo e todos.

Oxalá, que este “deserto existencial” (pandemia) ao qual estamos enfrentando, inspire em nós novas concepções, atitudes, visões e valores que defenda e priorize a vida de todos os seres vivos, a fim de resgatarmos algumas das benesses do paraíso perdido de outrora. Por hora é isso. Paz e bem!

Padre Adriano Brito Maia, OFS

Campanha da Fraternidade 2021: “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor”

Com praticamente seis décadas de história, a campanha da fraternidade tornou-se um instrumento plausível no Brasil, para a vivência das três regras basilares que permeiam todo espírito quaresmal, a saber: esmola, oração e jejum.

Oriunda e inspirada no movimento da ação católica que assistiu seu advento e apogeu na década de 30, anualmente a Igreja do Brasil, a partir do respaldo da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), lança um tema de acordo com o contexto atual em que está imerso o país, a partir da metodologia consagrado na América-Latina: VER, JUGAR e AGIR. Porém, a partir do ano 2000, na virada do milênio, ficou decidido pela CNBB, que seria salutar e significativo a elaboração de uma Campanha da Fraternidade de cunho Ecumênico, que contemplasse temas urgentes comum a todas as denominações cristãs, que atualmente participam do CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs), a saber: Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, Igreja Católica Apostólica Romana, Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, Aliança de Batistas do Brasil, Igreja Presbiteriana Unida e Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia. É dessa parceria entre tais denominações cristãs, que ficou decidido que a cada cinco anos no Brasil, se organizaria uma campanha da fraternidade essencialmente ecumênica. 

Com isso, tendo passado cinco anos da última campanha da fraternidade ecumênica celebrada em 2016, o CONIC decide recentemente lançar a quinta edição dessa série, com o tema: “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor”, seguido do lema: “Cristo é nossa paz: do que era dividido fez uma unidade”, com o intuito de tentar dirimir as polarizações ideológicas e o discurso de violência e ódio que recentemente tem permeado a sociedade civil, penetrando inclusive em instituições religiosas, verificadas principalmente em movimentos fundamentalistas e autorreferenciais que alimentam em seus seguidores posições fanáticas e de absoluto fechamento para com o diferente. Trata-se de um tempo conturbado em que verifica-se muitas contendas, divisões e radicalidades das mais variadas colorações que tem como principal escopo não só discordar ou refutar teorias ou ideias de outrem, para se chegar num consenso, mas ao contrário, eliminar o outro que pensa ou age de forma diferente do meu secto.

Diante dessa realidade obtusa e nebulosa, a campanha da fraternidade 2021, traz à baila a importância do diálogo, que não é imposição de ideias ou visões de mundo sobre o outro, e muito menos interrogatório ou convencimento, mas é sim compartilhamento de identidades, concepções e crenças, pois quando eu tenho firmeza de minhas crenças e ideias, mais aberto me torno para dialogar com o diferente, que não me causa medo ou insegurança, mas ao contrário, agrega e acrescenta novos valores ou concepções ao meu cabedal existencial. Para ilustrar, vale a pena recorrer a imagem simbólica frequentemente utilizada pelo Papa Francisco, que exorta a todos a derrubarem os muros do preconceito, do fanatismo, do fundamentalismo e construir pontes de unidade e de paz.

Enfim, peçamos a graça do Deus Trindade que é comunhão de amor entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, a capacidade de em nossas relações interpessoais, buscarmos o diálogo, a paz, a fraternidade e principalmente a unidade entre todos. Por hora é isso. Paz e bem! 

Padre Adriano Brito Maia, OFS.

Quaresma: tempo de conversão

A palavra Quaresma, tem sua origem etimológica na expressão latina “Quadragésima”, ou seja, quarenta dias entre o Carnaval (Quarta-feira de cinzas) e a Páscoa. O número 40 aqui é simbólico, e biblicamente falando, é um tempo longo de preparação para se alcançar algum propósito exitoso.

Nas Sagradas Escrituras, o número 40 aparece frequentemente em momentos importantes na vida de personagens ou de um povo, a saber: o dilúvio que Deus enviara sobre a terra perdurara 40 dias e 40 noites; o povo caminhou pelo deserto até chegar a Terra Prometida durante 40 anos sob a égide de Moisés, que assim como Jesus, ficou em jejum na montanha durante 40 dias; o profeta Jonas estabeleceu um prazo de 40 dias para que o ninivitas se convertessem; o profeta Elias caminhou durante 40 dias até chegar no monte Horeb, enfim, tem-se aqui uma centena de milhares de exemplos bem elucidativos que demonstra a linguagem simbólica que se esconde por detrás do número 40, que jamais deve ser interpretado, biblicamente falando de forma literal ou letrista.

Dito isso, como se pode observar, o tempo da Quaresma, é um momento forte e oportuno de conversão. A palavra conversão, tem sua origem etimológica na expressão grega “metanóia” que se embasa numa outra palavra hebraica “Shub”, que significa transformação, ou seja, mudança de rumo. É por isso, que a Igreja Católica no mundo inteiro, durante a quaresma, propõe as três práticas que auxiliam o cristão neste caminho de mudança de vida, são elas: o jejum, a oração e a esmola. Trabalhadas integralmente, nos conduzem ao arrependimento e ao perdão mútuo.

O jejum nos conduz a um contato mais íntimo com nós mesmos, pois nos faz experimentar a nossa fragilidade e total dependência de Deus. Já a oração silenciosa e contemplativa, nos coloca em contato e comunhão plena com Deus, que nos guia e nos dá força para buscarmos diariamente esse caminho de transformação de vida e, por fim, a esmola (caridade), nos coloca sempre a caminho dos irmãos e irmãs que mais sofrem, de preferência os mais pobres e abandonados. Daí a importância da Campanha da Fraternidade, que anualmente a Igreja do Brasil nos leva a trabalhar em conjunto e harmonia com instituições civis e filantrópicas no combate à fome e desigualdade social, sempre a partir de um determinado tema. Portanto, o período da Quaresma no Brasil, é um tempo diferenciado, em que pautamos o nosso caminhar nesta busca incessante de mudança de vida não só a nível particular ou subjetivo, mas principalmente sob a batuta da Campanha da Fraternidade, uma conversão no sentido de mudança de mentalidade a nível social e objetivo, conforme a proposta temática de cada campanha, no intuito da superação do chamado “pecado social”.

Enfim, peçamos ao Deus da vida, que nesta Quaresma, tempo forte e longo de preparação para a Pascoa do Senhor Jesus, que possamos nos empenhar numa verdadeira e autêntica mudança de vida. Por hora é isso. Paz e bem!

Padre Adriano Brito Maia, OFS.

Viva Nossa Senhoraaaa!!!!!!!!

Estamos vivenciando um tempo de graça e bênção no Senhor.

Como Paróquia estamos nos preparando para celebrar a novena de nosso Padroeiro, o Coração de Jesus. Estamos em quermesse, tempo de encontros de confraternização e festa. E  tudo isso acontece no mês de maio que é dedicado a Maria.

Trata-se de uma antiga tradição popular, que foi assumida pela Igreja, homenageando a pessoa da Mãe de Jesus. Ela merece dos cristãos um carinho todo especial pelo seu importante papel na história da salvação. Deus a escolheu para ser a mãe do Salvador, plenificou-a com sua graça, por isso proclamamos “Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco”.

Para todos nós, ela é modelo de fé e de oração, de contemplação do mistério divino. É a mulher obediente à Palavra de Deus, de quem Isabel testemunhou: “Bem-aventurada a que acreditou, porque se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor te foram ditas”. (Lc 1, 45) É modelo de amor e doação, que se põe a caminho para servir a prima Isabel, que está a serviço e preocupada com os noivos nas Bodas de Caná. É a mãe terna que ampara e protege seus filhos e sempre nos aconselha para que sejamos fiéis a Jesus: “Fazei tudo o que Ele vos disser”. (Jo 2, 5)

O carinho do povo por Maria faz com que ela seja louvada de diferentes maneiras, com diversos títulos. É o cumprimento da profecia que fez em seu cântico do Magnificat: “Todas as gerações me chamarão bem- aventurada.” (Lc 1, 48) O importante é que esse amor não se reduza a devocionismos ou meras celebrações festivas, mas se concretize na vivência do evangelho de seu Filho Divino.

A verdadeira devoção a Maria se manifesta na imitação de suas virtudes, praticando os ensinamentos de Jesus. A verdadeira devoção, também, reconhece que Maria é importante, mas é a segunda no plano da salvação. O primeiro lugar pertence a Jesus.

Ressalte-se, também, que Maria é uma mulher que viveu plenamente sua feminilidade. Muitas vezes os louvores que lhe tributamos parecem ofuscar esta verdade: ela é uma mulher simples, humilde, engajada na vida do povo. Mulher pobre, da periferia, que viveu a migração e a exclusão. Mãe zelosa, que cuidou de Jesus com afeto e dedicação, trocando suas fraldas, ajudando-o a dar os primeiros passos, cuidando de sua roupa e alimentação, ensinando as lições da vida, enfim, fazendo o mesmo que nossas mães fazem. Mulher forte aos pés da cruz e ao receber em seus braços o corpo exangue de seu Filho querido.

Ela nos convida a rezar e a louvar: “Minha alma glorifica o Senhor e exulta meu espírito em Deus meu Salvador”. (Lc 1, 46-47) Mas também nos convida a empenhar na luta pela justiça, pela construção de um mundo novo, numa clara opção pelos pobres e marginaliza- dos, os seus filhos prediletos. Pois no seu cântico nos recorda de que lado Deus e ela estão: “Derruba do trono os poderosos e eleva os humildes; aos famintos enche de bens, e despede os ricos de mãos vazias.” (Lc 1, 52-53)

Maria é muito importante na vida de Jesus e deve ser também em nossa vida. Ela é a cristã autêntica, comprometida com o Reino de Deus, sempre dócil e obediente à vontade do Senhor. Modelo de Igreja, modelo para todos os cristãos.

Muitos já falaram das maravilhas espirituais de Maria. É preciso, também, que lembremos suas outras dimensões. O fundamental é proclamá-la mãe de Deus, da Igreja e de toda a humanidade. Proclamá-la como imaculada, pura, santa, mas também como pessoa forte, corajosa, que assumiu plenamente seu papel de mulher e de mãe.

Maria Mãe de Deus e nossa Mãe e Mãe da Igreja rogue por nós…..

Viva Nossa Senhoraaaa!!!!!!!!

O PODER DA ORAÇÃO

Muitos podem se perguntar por que devem rezar. Eu sempre digo: a oração não muda nada em Deus. Ele é Imenso, Todo-Poderoso, Todo-Misericordioso, continua sempre o mesmo. Mas nós, à medida que rezamos, sentimos tudo se transformar em nossa vida. Desde o mais íntimo do coração, a mudança se faz. Uma pessoa que ora, transforma a si, aos outros e o ambiente onde está cumprindo sua missão.

O Convite para uma Oração pode parecer um acontecimento simples, mas na verdade, é uma providência necessária, principalmente se compreendermos que rezar é conversar com DEUS, é abrir-LHE o coração para falar dos anseios, dos projetos, das dores, angústias e decepções do cotidiano.

Na oração, temos a oportunidade de pedir e solicitar ao SENHOR tudo o que necessitamos para a nossa existência: inspiração, discernimento, disposição, perseverança e tudo o que mais precisarmos para seguir com a missão que o SENHOR nos confiou.

Mas é importante lembrar que, rezar não é só para solucionar os problemas e dificuldades que surgem no cotidiano, mas sobretudo, para agradecer ao SENHOR, todos os bens que ELE nos concede independentemente de nosso merecimento pessoal. Por isso mesmo, tão importante como pedir, é saber agradecer, é dar graças a DEUS pelo êxito conseguido em cada jornada e em cada empreendimento de nossa trajetória, que nos ajudam a vencer com dignidade, os diferentes obstáculos de nossa caminhada existencial.

Mas a vida de oração não é nada fácil. Estão aí os grandes mestres de todos os tempos em nossa Igreja para nos ajudar.

Muitas vezes, as “noites escuras” de São João da Cruz se fazem presentes. Quem é que nunca passou por um deserto espiritual? Quem é que nunca se sentiu árido na vida de oração? Tudo isso faz parte da caminhada. O importante é perseverar e saber esperar. Santo Ignácio de Loyola fala de tempos de desolação. Mas temos também os tempos de consolação, afirma o mesmo santo [Ignácio]. Estes nos servem como reservatórios de céu… São aqueles momentos marcantes, nos quais a presença de Deus foi “sensível”, foi irrefutável…

Esses momentos ficam na memória do coração e nos reabastece por uma vida! Com Deus, devemos conversar como com um amigo! Aliás, para mantermos uma amizade, o diálogo contínuo se faz necessário. Quando deixamos de falar com alguém, deixamos o espaço de tempo sem encontro ser muito grande, perdemos a intimidade, perdemos o brilho da amizade. Da mesma forma, com o Senhor, temos que renovar nossa amizade e o carinho por Ele e pelos que são d’Ele todos os dias. O encontro diário deve ser agradável. Devemos “marcar encontros” efetivos e afetivos com Nosso Senhor e Amigo. Efetivos no sentido de cumprirmos verdadeiramente o horário e o lugar e, de preferência, sempre os mesmos.

Para realçar a importância da Oração, JESUS ao longo de sua caminhada existencial manteve um permanente diálogo com o ETERNO PAI, rezando diariamente, como se estivesse prestando contas de seu notável e maravilhoso desempenho na Missão que heroicamente cumpria, com perseverante obediência ao CRIADOR e numa exuberante demonstração de infinito amor à humanidade. No Novo Testamento existe uma grande quantidade de citações, que comprovam as muitas ocasiões em que ELE rezava, nos ensinando que é necessário manter um atencioso contato com o ETERNO PAI através da oração, como condição essencial para termos forças para agir e revelarmos a nossa obediência, a ternura de nosso afeto e o nosso amor, como afinal deve ser o comportamento de um filho carinhoso que ama o seu PAI. A seguir citaremos alguns versículos somente para confirmar como JESUS rezava:
“Tendo despedido (a multidão), subiu ao monte, a fim de orar a sós”.(Mt 14,23)
“De madrugada, estando ainda escuro, ELE se levantou e SE retirou para um lugar deserto. E ali orava”. (Mc 1,35)

“ELE, porém, permanecia retirado em lugares desertos, e orava”.(Lc 5,16)
“Assim falou JESUS e, erguendo os olhos ao Céu, disse (rezou): PAI, chegou a hora: glorifica teu FILHO, para que teu FILHO te glorifique,…”(Jo 17,1-26)

O Ato de Rezar é tão importante, que quando solicitado pelos Apóstolos à lhes ensinar a Rezar, o SENHOR nos deixou uma Oração muito especial, a Oração do “PAI NOSSO” que ELE Mesmo fez e na qual evidencia a necessidade do CRIADOR ser tratado como “nosso PAI” , que verdadeiramente ELE é.

Crie o seu tempo e espaço de oração. E afetivos, porque devem ser marcados pelo amor, acima de tudo, encontros de louvor e ação de graças. Essa experiência nos faz experimentar o céu, e mesmo quando as nuvens parecerem encobrir o brilho do Sol, no coração uma certeza permanecerá: o Sol sempre estará lá, com seu intenso brilho! A vida de oração nos faz perceber que onde parece não haver caminho para nós, Deus faz um. Quantos são os testemunhos neste sentido? “Orai sem cessar. Em todas as circunstâncias dai graças, porque esta é a vosso respeito a vontade de Deus em Jesus Cristo” (1Ts 5,17-18).